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Ebook: Como identificar se um membro da família é dependente químico? (desenvolvido originalmente para o Cemap)

Como identificar se um membro da família é dependente químico? 

Como identificar se um membro da família é dependente químico?

Observação: conteúdo produzido originalmente para o Cemap (mas como fui em que escrevi e ele não está disponível por lá, o deixei à disposição por aqui)

Introdução

Para lidar com um ente querido que é dependente químico, é preciso tratar este hábito como uma doença. Seus efeitos podem trazer muito sofrimento tanto para quem tem o vício quanto para os familiares, os amigos e os colegas que se preocupam com o dependente.
Assim, o membro da família que está envolvido com drogas deve ser tratado com sincera compaixão e é com esse intuito que escrevemos esse e-book. Sabemos da delicadeza dessa situação e, por isso, estamos aqui para ajudar você a lidar com ela.
A primeira coisa — e, talvez, uma das mais importantes — é saber que, ao tratar um dependente, a atenção e os cuidados devem ser feitos com carinho e com muita dedicação, sem pressa, rispidez ou qualquer outra atitude que possa deixar a pessoa que a família tanto ama e quer ajudar ainda mais debilitada.
A partir do momento em que as pessoas da família passarem a agir assim, a relação entre o dependente e todos os que estiverem à sua volta melhora bastante, gerando uma relação de confiança mútua que é fundamental nestes casos.
E esse pode ser o primeiro passo para o dependente e para toda a família enfrentarem a batalha contra as drogas, sejam elas lícitas, como o álcool e o cigarro, ou ilícitas, como a maconha e o crack.
Acompanhe o texto em que iremos falar sobre como identificar se um membro da família é dependente químico e o que fazer para oferecer ajuda para dependentes de drogas. Vamos lá?

1. Você entende o que é a dependência química?

A dependência química deve ser vista como uma doença psiquiátrica e psicológica, já que a droga é capaz de alterar a saúde mental da pessoa.
Quando uma pessoa usa a droga, é acionado o sistema de recompensa do cérebro, localizado em uma área que recebe estímulos de prazer e transmite a sensação agradável para o corpo.
Esse sistema de recompensa é ativado quando acontece qualquer estímulo prazeroso, como alimentação, emoções diversas, sexo, sensação agradável aos sentidos (como na visão, na audição e no tato — como uma brisa fresca, por exemplo).
Quando um estímulo prazeroso é acionado, acontece no corpo uma ilusão química de prazer induzindo a pessoa a desejar essa mesma sensação outras vezes. Isso pode levar a uma compulsão, ou seja, a pessoa passa a ter uma vontade incontrolável de sentir aquilo de novo.
É assim que as drogas funcionam. Este desejo de sentir os efeitos prazerosos faz com que o dependente use as substâncias cada vez com mais frequência para prolongar estas sensações.

Nesta fase, ocorre a tolerância — a necessidade de ingerir mais drogas para sentir o mesmo efeito. À medida que a pessoa usa a substância química, ela aumenta a tolerância a ela em seu organismo, isto é, é necessário usar doses maiores para o efeito ser o mesmo das primeiras vezes, levando a um aumento gradual do uso.
A partir daí, a pessoa pode estar se tornando um dependente químico daquele estímulo e passa a ter problemas com drogas.
Para alguns dependentes, repetir o consumo da droga pode ser muito mais prazeroso do que outras sensações. Assim, as fontes naturais de prazer se tornam desinteressantes.

1.1. Dependente químico X Usuário de drogas

A sensação agradável causada pelas drogas pode ou não gerar dependência química, e é nesse ponto que se diferencia um usuário de drogas de um dependente químico. Por razões bioquímicas do organismo (as transformações químicas que ocorrem dentro do nosso corpo), alguns usuários desenvolvem dependência química e outros não.
O usuário de drogas é capaz de dizer não para as drogas, mesmo que esteja em um ambiente que incentiva o consumo. Já o dependente químico funciona de outra forma. De maneira geral, ele apresenta alguns sintomas, como:
  • A dificuldade de controlar o uso da droga com uma enorme vontade de ingerir as substâncias em diversos momentos;
  • A mudança de comportamento que provoca o afastamento de amigos, de familiares e de atividades que antes eram praticadas com o maior prazer;
  • A síndrome de abstinência, que é o conjunto de reações físicas e psíquicas que surgem no indivíduo ao suspender ou diminuir significativamente o consumo de droga.
É importante ressaltar que, para algumas pessoas, tornar-se um dependente de drogas leva mais tempo do que para outras, o que faz com que muitas delas percebam mais tarde que não conseguem mais viver sem a droga. Isso faz com que a busca para o tratamento demore a acontecer e, consequentemente, demore mais para surtir efeito.

2. Como identificar uma pessoa dependente de drogas?

Não é tão fácil identificar a dependência de drogas. Os amigos e, principalmente, a família demoram a perceber mudanças de comportamento e sinais que podem ajudar a identificar um familiar com problemas com este tipo de substância. Em parte, essa demora pode ocorrer pela crença da maioria das pessoas que “isso só acontece com os outros”.
Infelizmente, não é bem assim, e as dicas abaixo mostram as principais mudanças que podem ocorrer e que vão ajudar na difícil — mas necessária — tarefa de identificar se um membro da família é dependente de drogas.

2.1. Sintomas físicos da dependência química

Ansiedade, irritabilidade, insônia, apatia, tremores (que, em geral, passam quando se usa a droga novamente), vômitos, dores abdominais, gastrite, diarreia, confusão mental, esquecimentos muito frequentes, convulsões, aumento de infecções são alguns sinais importantes de dependência química.

2.2. Mudança de comportamento

O comportamento do indivíduo como um todo, como interesse nas atividades sociais, no trabalho e no lazer ficam extremamente limitados em virtude do uso da substância entorpecente.
A pessoa se isola de todos e deseja permanecer cada vez mais sozinho. É comum a pessoa se ausentar com frequência e os horários de voltar para casa ficarem incertos. Não dizer aonde vai, onde foi ou ainda mentir sobre estas informações passam a ser um comportamento recorrente de um dependente.

2.3. Alteração radical nos interesses pessoais

Ocorre um visível desinteresse generalizado. Nada mais faz sentido para ele e nem dá prazer como antes. As atividades sociais, ocupacionais ou mesmo de lazer do indivíduo sofrem mudanças radicais em virtude do uso das drogas.

2.4. Falta de motivação

Já que as coisas param de fazer sentido para o dependente, nada mais o estimula como antes. Neste item, os sintomas são parecidos com o da depressão. O isolamento e a perda de interesse em tudo são nítidos.
Para identificar esta falta de interesse, uma boa prática é tentar se lembrar das atividades que a pessoa gostava de fazer e a convidar para te acompanhar nelas. Por exemplo: chame-a para assistir seu filme preferido, para visitar uma pessoa querida ou para comer seu prato predileto.

2.5. Diminuição de rendimento no trabalho ou nos estudos

O compromisso com o trabalho e/ou o rendimento com os estudos sofre alterações muito visíveis, podendo chegar ao ponto de a pessoa parar de trabalhar e de estudar, se afastando de qualquer contato com colegas de trabalho e com os amigos da escola.

2.6. Mudanças de humor bruscas

O uso frequente de álcool e outras drogas pode causar mudanças abruptas de humor. Usar drogas com cada vez mais frequência, inclusive pela manhã, e a mudança de humor após alguns goles de bebida, no caso do álcool, por exemplo, são fortes indícios de dependência alcoólica. Um importante indício é a pessoa acordar irritada e apresentar melhora após beber logo pela manhã.
As mudanças bruscas de comportamento também ocorrem após ingerir, fumar, cheirar ou injetar drogas no corpo. Elas podem ocorrer assim que a droga começa a fazer efeito (o que, em geral, é muito rápido) e também quando o efeito acaba. Nesse momento, a pessoa pode ficar extremamente irritada e agressiva.

2.7. Mudanças no vestuário

Os usuários de drogas injetáveis começam a usar camisetas de mangas compridas (mesmo no calor) para esconder as marcas de injeções. Também, podem usar a mesma roupa sem colocá-la para lavar por não perceber que ela está suja.

2.8. Sustentação do vício

Sustentar o vício tem dois significados e ambos são importantes. Um deles é a necessidade de dinheiro para comprar drogas. O outro é o uso cada vez mais frequente e, portanto, ficando cada vez mais difícil abandonar as drogas, ao sustentar a ação de se drogar.
Já a necessidade de arrumar dinheiro urgente e de diversas fontes — lembre-se que a essa altura, ele pode ter perdido ou abandonado o emprego — pode fazer com que os familiares percebam que esteja sumindo objetos e até móveis da casa. Este é outro sinal quase evidente que a pessoa tem problema com drogas.

3. Como tratar a dependência?

Após identificar, ou mesmo suspeitar, que o familiar é dependente químico, a primeira ação deve ser rápida e eficiente já que não há tempo a perder. Procurar ajuda médica e psicológica é absolutamente necessário. Um médico psiquiatra avaliará a pessoa e, se a suspeita se confirmar, ele poderá ou não indicar a internação em uma clínica de recuperação especializada, além de recomendar que os familiares mais envolvidos busquem ajuda psicológica.
Em uma clínica de recuperação para dependentes, a pessoa terá supervisão em período integral, e contará com o apoio de uma equipe multidisciplinar que inclui psiquiatras, psicólogos, enfermeiros, nutricionistas, arte-terapeutas e até técnicos-agrícolas.
Há clínicas que oferecem diversas modalidades de internação. Alguns pacientes permanecem internados 24 horas por dia, outros passam o dia se beneficiando de diversos profissionais contratados para motivação e para prevenção de recaídas e, à noite, retornam ao ambiente familiar. A necessidade de cada paciente determinará o tipo de internação escolhida.

3.1. Existe cura para a dependência química?

Não se fala de cura para esse tipo de doença e, sim, de recuperação. Infelizmente, não são raros os casos de pessoas que permanecem por longos períodos sem usar a droga e que voltam a fazer uso da substância por motivos diversos — geralmente, emocionais.
Por ser uma doença traiçoeira, a dependência química deve ser tratada como uma doença crônica e incurável, sendo necessário que a pessoa se mantenha em psicoterapia, em programas de ajuda com outros dependentes (mesmo que estiver feliz e acredite que esteja “curada”) e sempre em contato com familiares e com amigos.

Conclusão

De início, pode parecer difícil para a família ser capaz de permanecer calma e tentar ajudar ao invés de deixar a pessoa ainda mais irritada. Mas, quando a pessoa é internada para se recuperar, os profissionais da clínica sabem exatamente como agir em todos os momentos, inclusive nos mais difíceis como nas recaídas e na síndrome de abstinência.
Dessa forma, é importante que a família entenda que a internação pode sero melhor caminho para o tratamento do dependente químico e, assim, consiga convencê-lo — com ajuda dos profissionais da clínica escolhida — que esta é a melhor alternativa para ele.
Os familiares também recebem ajuda de psicólogos para compreender o que está acontecendo e como agir em dias de visita ou nas saídas para finais de semana. Esse auxílio prestado pela clínica de internação é muito importante, já que a família deve acompanhar a progressão dos sinais, apoiar e mostrar ao dependente químico que está junto a ele para enfrentar essa batalha difícil, mas que pode ser vencida.
Não é fácil presenciar algum ente querido nesta posição, por isso, toda ajuda é válida. O que deve se manter constante durante todo o período de tratamento é a compaixão com o dependente. Não é hora de apontar dedos ou buscar causas. É um momento para solucionar o problema e a melhor maneira de fazer isso é se unindo. O apoio da família, dos amigos e dos colegas é fundamental para a recuperação de um dependente de drogas.

Sobre o CEMAP

O CEMAP é uma centro de recuperação  para dependentes químicos, que acolhe pacientes portadores de transtornos relacionados ao álcool e outras drogas como crack e cocaína.
O centro de recuperação  está em operação há um ano e tem planos de expansão, com o objetivo de se tornar referência no manejo  de pacientes dependentes em Minas Gerais.
No momento, trabalha com várias modalidades de hospedagem de dependentes e conta com o apoio de uma equipe multidisciplinar parceiros que inclui psiquiatras, psicólogos, enfermeiros, nutricionistas, arte-terapeutas e técnicos-agrícola.
Faça uma visita ao site para se informar melhor.

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